Tecnologia desenvolvida no Centro combina propriedades da planta amazônica e descarte da indústria pesqueira, gerando patente verde que promete reduzir o medo de agulhas no dentista.
O formigamento característico que o jambu (Acmella oleracea) causa na boca, famoso em pratos da culinária paraense como o tacacá, transformou-se em uma promissora solução para um medo compartilhado por muitos pacientes: a dor da agulha no consultório odontológico. Pesquisadores do Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp desenvolveram um filme anestésico e anti-inflamatório a partir do extrato da planta.
A inovação combina o espilantol, a molécula responsável pelo efeito anestésico do jambu, com a quitosana, um polímero biodegradável obtido a partir do descarte de carapaças de crustáceos (como camarões). O produto final funciona como um pequeno bioadesivo que, ao ser aplicado diretamente na gengiva do paciente, promove a perda de sensibilidade local antes da aplicação da injeção anestésica convencional.
Da tradição popular à bancada do laboratório
A ideia surgiu do conhecimento tradicional. Conhecida popularmente como a “planta da dor de dente”, o jambu já despertava o interesse da comunidade científica. No entanto, o diferencial do projeto conduzido pela Dra. Verônica de Freitas-Blanco e pelo orientador Dr. Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues foi transformar esse extrato em um produto odontológico viável para a indústria.
“O diferencial do jambu é que ele não tem apenas o efeito anestésico, mas também propriedades anti-inflamatórias”, explicou a Dra. Verônica de Freitas-Blanco durante o período de desenvolvimento da pesquisa.
Um dos grandes desafios enfrentados pela equipe no CPQBA foi a forte coloração esverdeada do extrato bruto da planta, um fator que trazia um aspecto ruim e poderia comprometer a aceitação comercial em formulações como cremes ou pomadas. Para solucionar o problema, os cientistas utilizaram carvão ativado para purificar e clarear o extrato sem perder suas propriedades ativas. Esse processo inovador de clareamento, que resultou em um extrato com mais de 4% de espilantol e livre de clorofila, foi o ponto central que garantiu o registro da patente.
Eficácia comprovada e perfil multidisciplinar
Para verificar a ação do filme, a equipe realizou testes pré-clínicos (in vivo) utilizando o modelo experimental conhecido como tail flick (elevação de cauda), que mede o tempo de reação a um estímulo térmico. Os resultados demonstraram que o filme à base de jambu teve um desempenho tão bom ou superior ao do Emla, um anestésico tópico amplamente consolidado e já disponível no mercado farmacêutico.
Para o Dr. Rodney Rodrigues, o sucesso do projeto reflete a essência do Centro. “É um desafio porque não é a minha expertise primária, eu sou farmacêutico. Mas a gente vai tentando se superar, e isso é o gostoso da pesquisa. O CPQBA tem esse perfil pluridisciplinar de se lançar pensando em várias possibilidades”, destaca o pesquisador, ressaltando o potencial de transferência tecnológica da unidade.
A tecnologia faz parte do Portfólio de Tecnologias da Inova Unicamp, classificada como um processo de purificação mais simples, rápido, eficiente e de menor toxicidade para o setor farmacêutico e odontológico.
- Confira o vídeo de divulgação científica sobre esta pesquisa no Instagram Reels da COCEN.
- Para detalhes técnicos sobre a patente e licenciamento, acesse a página da tecnologia na Inova Unicamp.
(Imagem e notícia geradas com o auxílio de inteligência artificial generativa)